Raiva

Raiva. Sentimento incandescente e abrasador. Quem nunca o sentiu?

Quantas vezes não nos sentimos já dominados pela cólera absolutamente disruptiva?

Ou por sentimentos viscerais tremendamente incontroláveis?

Seguramente todos nós, pelo menos uma vez nas nossas vidas.

Talvez os menos temperamentais, os menos impulsivos e mais pachorrentos, experimentem uma raiva mais contida, interior e, provavelmente, mais sufocante.

Mas ela acaba sempre por manifestar-se, numas pessoas por umas razões, noutras por outras.

Tudo dependerá do que nos move, nos magoa ou nos persegue.

A raiva é, no entanto, algo perigoso quando, sobre ela, perdemos o controle.

Ao apoderar-se de nós, deixa-nos sobre um limbo extremamente perverso que oscila entre a violência, a agressividade e o ódio perene.

E nenhum dos cenários é bom.

Num primeiro cenário podemos ficar-nos pela agressividade e pela ferocidade das palavras. E essas podem provocar mágoas profundas que conduzem, não raras vezes, ao fim da ligação que temos com pessoas de quem gostamos muito. Importa, por isso, compreender que as palavras têm uma força própria e algumas são dotadas de uma irreversibilidade absoluta.

Num segundo e mais grave cenário, essa raiva incontrolável é também responsável por muitas agressões psicológicas e físicas extemporâneas ou, em  casos mais extremos, por diversos homicídios, alguns deles bastante macabros.

Quando nenhum destes cenários se materializa, um outro, igualmente prejudicial, poderá surgir. Chama-se ódio.

A raiva em relação a algo ou a alguém, pode cimentar o rancor e o desprezo que facilmente se poderão transformar num ódio cego e sem freio.

Bem sabemos que nas pessoas boas, nas genuinamente boas, será mais difícil que a raiva as tolde a este ponto, mas ninguém está imune a tais situações nem à perda do controle quando sujeito a episódios de elevada pressão, que poderá ser pessoal, familiar, profissional, social, mental ou de qualquer outro tipo.

Por essa razão, não parece ser possível definirmos de que modo podemos ou devemos gerir o nosso comportamento em tais situações. Tudo dependerá, em boa medida, das circunstâncias.

Devemos calar-nos em muitas destas situações?

Bem sabemos que o silêncio é precioso, mas apenas e só se isso não fizer com que mais tarde venhamos a implodir, desmoronando-nos a nós próprios e a tudo o que se encontra ao nosso redor.

Devemos falar e explodir para que o magna que temos cá dentro não seja mais destruidor do que, na realidade, seria suposto?

Isto é, podemos expressar a nossa indignação em determinados momentos desde que não utilizemos palavras cortantes, não ofendamos, intimidemos ou subjuguemos ninguém?

Sem dúvida. O exercício mais difícil de todos será o de conseguir reagir às situações que nos provocam um desconforto emocional extremo sem que percamos o freio, a noção do tempo e do espaço e, acima de tudo, que nunca percamos a noção do que é o bom senso e o do que é o extravasar absoluto.

Somos pessoas lidando com pessoas ou com situações que envolvem e/ou que são provocadas por pessoas.

Nesse âmbito, devemos ter o cuidado e a cautela de tratarmos os outros do mesmo modo que gostaríamos de ser tratados.

Nem sempre os outros pensam ou agem como nós.

Nem sempre os outros tomam as decisões mais justas ou, em última instância, aquelas que nós, de acordo com a nossa subjetividade, entendemos como sendo as mais justas.

O que é certo e errado para nós, não é, necessariamente, entendido pelos outros do mesmo modo. Tudo tem a ver com a matriz psico-socio-cultural de cada um.

Se proferirmos palavras agressivas é normal que recebamos outras de volta.

Se atirarmos pedras a alguém é provável que recebamos outras de volta.

E, na verdade, não interessa quem tem razão ou quem começou primeiro.

Temos, acima de tudo, de ser apaziguadores.

Se optarmos por tal postura na nossa vida, será mais fácil domarmos a raiva que nos assola, mas também aquela que irrompe nos outros.

Mas é preciso que fique claro.

Não precisamos de ser cordeiros vivendo de cabeça baixa, nem precisamos de ser bestas enraivecidas para marcarmos a nossa posição.

Basta que consigamos olharmo-nos nos olhos e que, de modo sereno, tentemos apresentar o nosso ponto de vista ao outro sem termos de agredi-lo.

Lembrem-se que tudo perde a força e que tudo é apenas um grão de arroz quando comparado com a grandiosidade suprema da morte.

Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis
About Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis

Raul Tomé é licenciado em Sociologia, Mestre em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e Pós-Graduado em Políticas de Igualdade e Inclusão.
Ex-cronista do Jornal Negócios, autor e co-autor de artigos científicos, colabora actualmente com a revista Repórter Sombra.
Tem ainda formação em diversas áreas, entre as quais a Formação de Formadores, Gestão de Tempo, Gestão de Conflitos, Liderança de Equipas e Coaching.
Lançou em 2019 o seu primeiro livro a solo intitulado "Deficiência, Nanismo e Mercado de Trabalho - Dinâmicas de Inclusão e Exclusão".
É criador da página Ipsis Verbis, através da qual realiza resenhas de obras literárias e a divulga citações de relevo, quer de autores nacionais quer internacionais, independentemente da sua dimensão no mundo literário.
É o fundador da página "Balthasar Sete-Sóis", onde partilha os seus escritos e também criador da rubrica "Passa-Palavra", inserida no programa "Amantes da Poesia" da Rádio PopularFm, onde colabora desde 2018.
Colaborou também em diversas colectâneas e antologias realizadas por diversas editoras nacionais.
Actualmente é coordenador literário na In-Finita, sendo responsável pela organização e revisão de uma colecção literária à qual deu o nome de "Ipsis Verbis".

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