Ódio

De que é que se alimenta o ódio?

Tenho ficado a pensar: será que o ódio alheio é tão grande que fica feliz com a depressão de outra pessoa, com a doença, com a angústia, com a morte?

Muita coisa me tem passado pela cabeça no último mês. Muita coisa me é dita todos os dias. Muita coisa em que já acreditei e muita coisa que já deixei de acreditar também.

Queremos todos o bem? Aquele bem de ver todos os dias uma pessoa ficar bem, feliz? Ou aquele bem de sabermos que aquela pessoa se debate com dificuldades e que amarra a amarra se consegue soltar e voltar a viver bem de novo?

Não. Penso que as pessoas preferem o ódio. Preferem queixar-se do mundo. Preferem dizer mal do amigo que atraiçoou, dos racistas e dos fascistas, comentar as redes sociais, do que ativamente falar, agir, combater e crescer. O ódio é sempre o caminho mais fácil.

Eu diria que sou uma pessoa fácil de odiar. Não me fico nunca, nunca me resigno, luto pelo que acredito e falo abertamente no que acredito. Desafio e deixo que me desafiem. Nunca fui do tipo “lovable” a nível da intervenção social. Não me fico perante as injustiças e não olho nem assobio para o lado.

Se pudesse tinha o orfanato em casa: um orfanato de almas perdidas, de almas mordidas pelos destinos cruéis (e como eu percebo bem esses destinos e essas almas), um orfanato de pessoas talentosas, brilhantes e que ninguém vê, um orfanato de crianças que não tem culpa dos pais que têm ou da sociedade onde vivem, um orfanato de pessoas vítimas de quem odeia.

O ódio não tem de ser vil, ou cruel, o ódio manifesta-se na ausência quando alguém pede ajuda, manifesta-se no que que quer ouvir e acreditar para que o mundo fique sempre um pouco pior; o ódio manifesta-se na felicidade que deixamos de dar e sentir porque somos escravos de um mundo pior de uma sociedade orgulhosa; o ódio está ali ao lado, vive por debaixo de nós e está sempre ao alcance de uma cerveja.

O ódio vive das mentes pequenas que não pensam. Vive no ego. Vive nos lobos raivosos em pele de cordeiro. Vive no querermos levar sempre a melhor e vive nas virgens ofendidas que não querem compreender a realidade das pessoas com quem vivem.

O ódio vive da mesquinhez de nada conseguirmos e nada fazermos para conseguirmos, mas olhamos para os outros e acreditamos: se consegue aquilo é porque passou a perna a alguém, é trafulha, é corrupto. Não é… Mente trafulha e corrupta de quem isto pensa.

O ódio alimenta-se da inveja discreta sob a forma de vítima, alimenta-se daquelas pessoas que se fazem mesmo boas e são, para dar palmadinhas nas costas quando estamos em baixo, porque o ódio gosta de ser o número 1 do pódio. Lá em baixo está toda a gente bem! Amigos são os que adoram ver-te feliz e não te invejam (ou odeiam) por isso.

O ódio vem quando falta tudo: “casa sem pão, todos ralham e ninguém tem razão” e assim as relações deixam de ser possíveis, sejam de amizade ou de amor.

O ódio vive do que não se sabe mas se acha que se sabe, do que não se vê nem se quer ver. O ódio faz-nos perder o amor e o calor. E o orgulho propicia isso também e claro, a falta de perdão (e nem se percebe que nunca se teve razão).

Poderia tecer uma tese de doutoramento ao ódio, mas não vale a pena. Não vale a pena estudar o que não se sente e não se quer sentir. E com risco de ser contagiada, “vá de retro satanás”, xo xo ódio e ódios, não te quero, não te sinto!

O ódio é sempre o caminho mais fácil. Todos/as queremos os caminhos mais fáceis… Eu não, prefiro os longos, turbulentos que duram uma vida e para a vida! A isso chama-se AMOR!

Anabela dos Reis Moreira
About Anabela dos Reis Moreira

Viajou por muitos países, conheceu muitas pessoas e muitos lugares. Aprendeu com todas as pessoas que observou e com quem conversou. Trabalhou em Portugal, na Bélgica, nos EUA e em Angola. Hoje desenvolve o seu trabalho na área da gestão de pessoas (recursos humanos), formação, coaching e mentoring. E escrita, adora escrever. Assumiu diferentes funções e colaborou com empresas em diferentes estados de maturação, quer em ambiente nacional, quer internacional. Desempenhou funções relacionadas com: gestão do talento e tarefas inerentes; gestão de recursos humanos em sentido lato e formação e desenvolvimento. A nível académico, estudou direito na Universidade de Coimbra, mas foi em Psicologia e no Porto que encontrou a sua verdadeira vocação. É certificada em Coaching, PNL e estuda todos os dias mais um pouco, vê mais um pouco, ouve mais um pouco para poder ser mais cultivada. Hoje gere a UpTogether Consulting e trabalha com pessoas, para pessoas. Faz programas de shaping leaders e reshaping leaders e gosta muito do que faz. Costuma dizer às crianças que forma enquanto voluntária em educação para os direitos humanos: “quando mais soubermos, quanto mais conhecemos e sentimos, menos somos enganados”. Enfrenta cada dia com uma enorme alegria que é simples de ver e sentir!

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