Amargura

Quase todos nós, num qualquer momento das nossas vidas, já nos sentimos amargurados.

Muitos experimentam este sentimento de tristeza logo desde a infância e depois há quem tenha, ao longo da vida, diversos episódios e quem os tenha mais pontualmente.

O importante a reter é que este sentimento de profunda tristeza pode levar-nos a um poço muito fundo e, não raras vezes, sem possibilidade de retorno.

Todavia, existem situações em que, com maior ou menor dificuldade, conseguimos identificar os motivos para a nossa amargura ou para a amargura de terceiros.

A morte de um familiar querido, a perda do emprego, o fim de um relacionamento (independentemente da espécie de relacionamento), a falta de dinheiro, a incapacidade para fazer algo de que gostamos, uma nota menos positiva durante o nosso percurso académico, as más relações familiares, o abandono, a descoberta de uma doença, as dívidas acumuladas, entre variadíssimos outros cuja lista seria interminável, nomeadamente, porque o que amargura algumas pessoas, não amargura, necessariamente, outras.

Tudo depende da fase da vida em que cada um se encontra, mas também da sua estabilidade emocional no momento em que as coisas correm menos bem.

Identificados os motivos da amargura é possível ajudarmos ou pedirmos ajuda a um especialista, quer seja um psicólogo, um psiquiatra ou um psicoterapeuta. O importante é que consigamos obter a ajuda técnica de um profissional especializado e certificado e, sempre que possível, que essa ajuda seja acompanhada do carinho e da atenção dos que nos são mais próximos, sem esquecer que pedir ajuda não é um acto de fraqueza nem motivo de vergonha.

Identificar o motivo(s) da amargura, não significa, porém, que esta seja fácil de ultrapassar, mas é sempre mais fácil encontrarmos mecanismos para superarmos os momentos de fragilidade quando estamos conscientes daquilo que nos atormenta.

A maior complexidade ocorre quando não conseguimos identificar o motivo da amargura dos que nos são próximos e, pior ainda, quando não conseguimos identificar o motivo da nossa própria amargura.

Abate-se sobre nós uma sombra provocada por nuvens negras que não conseguimos dissipar.

Se nos casos em que sabemos o que nos amargura é importante pedir ajuda, nas situações em que não sabemos, essa ajuda torna-se ainda mais essencial. Se ficarmos quietos na esperança que passe, desejando apenas acordar num dia em que ela já lá não esteja, corremos o risco de ser engolidos sem disso nos darmos conta.

E quando assim é, entramos numa espiral de tristeza e de sofrimento, vivemos amargurados e vamo-nos, também nós, tornando amargos.

A amargura é corrosiva, provoca desgaste e vai-nos criando uma erosão impossível de estancar.

Toda e qualquer amargura na nossa vida traz conhecimento, experiência e desgaste. Mas esse desgaste é tanto maior quanto maior for o tempo em que permanecermos no estado de amargura.

É, por isso, muito importante reagirmos aos primeiros sinais e pedirmos apoio a alguém próximo que nos possa monitorizar, apoiar e conduzir à ajuda técnica de que possamos vir a necessitar. Caso contrário, podemos nunca chegar a ter forças para pedir socorro, porque a dor sufoca-nos a tal ponto que chegamos a pensar que estamos condenados e que nada mais valerá a pena.

Contudo, convém frisar que a amargura nos jovens é muito mais difícil de gerir e que devemos ser nós, os adultos outrora jovens, a redobrar a atenção e a ficarmos alerta em relação aos pormenores que são, muitas vezes, pormaiores, nomeadamente, no que respeita à música que ouvem e ao conteúdo das suas letras.

A música é, quer em miúdos quer em graúdos, muito reveladora do nosso estado de espírito.

E nestas faixas etárias os adultos, do alto da sua experiência de vida, tendem a desvalorizar a amargura dos jovens, tratando-a como se fosse apenas um drama, uma tempestade num copo de água, porque já aprenderam que tudo passa e que nada é eterno.

Mas, no entanto, não é bem assim! Há cicatrizes internas que podem acompanhar-nos para a vida e se não forem bem saradas podem abrir-se, gangrenar e terminar com a nossa existência.

Por último, quero deixar apenas um alerta. Há sinais de amargura que se evidenciam. Se estivermos atentos, se formos sensíveis e céleres na reação, se nos preocuparmos, podemos travar situações de amargura ainda maiores.

Podemos até, directa ou indirectamente, salvar algumas vidas, incluindo a nossa.

Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis
About Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis

Raul Tomé é licenciado em Sociologia, Mestre em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e Pós-Graduado em Políticas de Igualdade e Inclusão.
Ex-cronista do Jornal Negócios, autor e co-autor de artigos científicos, colabora actualmente com a revista Repórter Sombra.
Tem ainda formação em diversas áreas, entre as quais a Formação de Formadores, Gestão de Tempo, Gestão de Conflitos, Liderança de Equipas e Coaching.
Lançou em 2019 o seu primeiro livro a solo intitulado "Deficiência, Nanismo e Mercado de Trabalho - Dinâmicas de Inclusão e Exclusão".
É criador da página Ipsis Verbis, através da qual realiza resenhas de obras literárias e a divulga citações de relevo, quer de autores nacionais quer internacionais, independentemente da sua dimensão no mundo literário.
É o fundador da página "Balthasar Sete-Sóis", onde partilha os seus escritos e também criador da rubrica "Passa-Palavra", inserida no programa "Amantes da Poesia" da Rádio PopularFm, onde colabora desde 2018.
Colaborou também em diversas colectâneas e antologias realizadas por diversas editoras nacionais.
Actualmente é coordenador literário na In-Finita, sendo responsável pela organização e revisão de uma colecção literária à qual deu o nome de "Ipsis Verbis".

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