Saturação

Quem nunca sentiu saturação?

Tantas vezes nos sentimos saturados. Do emprego, da namorada, dos pais, dos irmãos, dos amigos, da mulher, dos filhos, do patrão, do emprego, dos colegas de trabalho, dos vizinhos ou simplesmente da vida que levamos.

Quantos de nós não se sentem saturados de tudo e de todos?

Julgo que, em algum momento da vida, já todos dissemos: “só me apetecia desaparecer”.

E isto ocorre, nomeadamente, quando atingimos o ponto de saturação, aquele em que acreditamos não sermos capazes de suportar mais o peso das pessoas e das coisas que temos à nossa volta ou sobre os nossos ombros.

Quando este sentimento de desespero começar a tomar conta de nós, devemos ligar os sinais de alarme e perceber que podemos passar para o “lado de lá” da razão e que, por consequência disso, estamos mais suscetíveis a atos irrefletidos e/ou completamente irracionais, nos quais nem sequer nos revemos.

A nossa mente e o nosso corpo vão transmitindo alertas, mas, na azáfama dos dias e das obrigações a que estamos sujeitos, vamo-nos deixando de lado, acreditando que aguentamos tudo.

É, por isso, muito importante percebermos quando estamos no limite e esse limite manifesta-se a partir de um sentimento claro de saturação.

E como podemos resolver esse estado de saturação?

Talvez não existam fórmulas mágicas, nem tão pouco tenho a pretensão de apresentar soluções capazes de resolver cabalmente o problema, até porque cada caso é um caso, somos todos demasiado heterogéneos e o que serve para uns pode não servir para outros.

O que pretendo, essencialmente, é alertar para o facto de a saturação ser a incapacidade de suportar algo que já não nos permite respirar e isso pode estar associado ao facto de ocuparmos demasiado tempo da nossa vida ou do nosso pensamento com algo que nos parece cíclico.

Imaginemos que estamos sentados no sofá a ler um bom livro. É perfeitamente normal que dali a uns minutos (ou horas) possamos já estar saturados.

Então se assim é, provavelmente, não continuaremos a praticar essa atividade e vamos em busca de outra que nos revigore novamente.

A saturação é, em parte, sentirmos que algo, a determinada altura, passa a ser “mais do mesmo”.

Desse modo, é determinante que consigamos dispersar por forma a que não atinjamos níveis de saturação irreversíveis.

Se estamos saturados do nosso trabalho, temos de conseguir ocupar o nosso tempo de “não-trabalho” com algo que nos motive e nos faça ansiar pelo momento de podermos voltar a essa prática prazerosa que nos poderá, ainda, levar ao conhecimento de novas coisas, lugares e pessoas. E nem sempre essas atividades têm custos financeiros elevados. Há imensas coisas que podemos fazer sem que isso nos acarrete custos, nomeadamente, quando o orçamento familiar é, por si só, muito limitativo.

O mesmo se passará com as pessoas. Quando estamos saturados, talvez possamos experimentar passar mais tempo sozinhos ou na companhia de outras pessoas para que as relações, que se começam a saturar, se possam revigorar novamente através daquela palavra mágica e tão portuguesa como é a saudade.

É óbvio que nada disto é a solução definitiva para todos os nossos problemas ligados à saturação, mas podem ser indicadores de como podemos dar uma nova cor àquilo que, a dada altura, já nos parece demasiado gasto!

Cabe a cada um, de acordo com a complexidade e autenticidade do seu ser, encontrar a solução para a saturação de que padece. No entanto, saturação nem sempre significa o fim do caminho, mas sim uma oportunidade para encontrar novos caminhos sem que tenhamos de cortar com as raízes que nos mantêm de pé.

É importante que percebamos que os cortes radicais, não raras vezes, nos fazem tombar como árvores sem amparo e que a solução não passa  sempre pelo cortar da raiz, mas sim por encontrar novos espaços por onde possamos crescer com novos e vigorosos ramos.

Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis
About Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis

Raul Tomé é licenciado em Sociologia, Mestre em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e Pós-Graduado em Políticas de Igualdade e Inclusão.
Ex-cronista do Jornal Negócios, autor e co-autor de artigos científicos, colabora actualmente com a revista Repórter Sombra.
Tem ainda formação em diversas áreas, entre as quais a Formação de Formadores, Gestão de Tempo, Gestão de Conflitos, Liderança de Equipas e Coaching.
Lançou em 2019 o seu primeiro livro a solo intitulado "Deficiência, Nanismo e Mercado de Trabalho - Dinâmicas de Inclusão e Exclusão".
É criador da página Ipsis Verbis, através da qual realiza resenhas de obras literárias e a divulga citações de relevo, quer de autores nacionais quer internacionais, independentemente da sua dimensão no mundo literário.
É o fundador da página "Balthasar Sete-Sóis", onde partilha os seus escritos e também criador da rubrica "Passa-Palavra", inserida no programa "Amantes da Poesia" da Rádio PopularFm, onde colabora desde 2018.
Colaborou também em diversas colectâneas e antologias realizadas por diversas editoras nacionais.
Actualmente é coordenador literário na In-Finita, sendo responsável pela organização e revisão de uma colecção literária à qual deu o nome de "Ipsis Verbis".

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